sábado, 24 de setembro de 2011

Florações do Brasil




Em passeio pela net, fico sabendo que a flor "Bastão do Imperador" é uma flor tropical do Nordeste do Brasil. "Gengibre-tocha", "Flor da Redenção" são outros nomes populares para a "Etlingera Elatior" ou "Alpinia speciosa Schum", que chega a alcançar o porte de 4 metros. Flor de corte, muita utilizada para ornamentações. Noutros registros, aponta-se a sua origem na Indonésia e faz-se referências sobre a importância de seu óleo para a cura de movimentos de vítimas de AVC. Você sabe mais alguma coisa sobre essa lindona?

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

"Nosso lar"

Em meio à busca de cenários propícios às representações do ritual de passagem da vida na terra para a vida pós-morte, por um umbral circundado de referências dos reinos mineral, vegetal e animal, a arquitetura e as engenharias nomeadas como uma habilidade única são retratos de anunciação de mega estruturas espaciais já conhecidas entre nós.

Em Nosso Lar, o filme, esses cenários constituem um presente "avisado" a ocorrer na terra, através de mãos de "engenheiros" programados para encarnar brevemente.

Incursões arquitetônicas desportivas em todo mundo, sedes de jogos das copas e/ou olimpíadas mundiais) já anteciparam o futuro espacial anunciado pelo filme.

Um modelo de cidade, cujo desenho dá inclusive capa ao filme, gera a identidade paisagística e resguarda a organização espacial que dá vez a um sistema hierarquizado de gestão da vida pós-morte através de uma surpreendentemente única governadoria e de seus ministérios.

Certamente que a arquitetura moderna deu esteio às elucubrações espaciais e funcionais da cidade ideal ali figuradas.

Em meio à antecipação do futuro dessa arquitetura conhecida contrastam cenários que enveredam por interiores de edificações robustas assemelhadas às medievais.

Sem conseguir representar imagens consentâneas a um desconhecido da vida além terra, Nosso Lar reabre e alimenta, com simplicidade, corações humanos e mentes visionárias utópicas que apostam suas fichas na possibilidade de construção de sociedades em que a generosidade, o altruísmo e a delicadeza cerquem a busca pessoal por melhores modos de viver a vida e com a vida.

Nosso Lar foi lançado em setembro de 2009. Visitando http://www.nossolarofilme.com.br uma ferramenta possibilita a leitura do sistema espacial da cidade hierarquizada.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Oh, Deus, salve a Paraíba!

(Aos destinatários da mensagem "Ricardo Coutinho Consagra João Pessoa a Satanás" veiculada na internet, neste instante meus destinatários).

A condução dos destinos da Paraíba está por vir no próximo dia 31/10/2010 e ela depende de todos nós. Sabemos discenir que o significado do empenho individual para a definição do voto não está apenas na hora da urna; tanto que é patente a intenção do/da emissário/a desta comunicação no convencimento de outras pessoas a quem se esforça em fazer acreditar no que não é o melhor para nossa Paraíba.

Não sei se o endereço emitente corresponde a uma pessoa de bem que faz política com nome, identidade e cpf. Contudo é muito clara a sua "contribuição" no sentido do desvirtuamento do debate necessário sobre o desenvolvimento da Paraíba, no sentido de cacifar-se em nome de uma instituição paraibana de ensino superior, no sentido da maculação da imagem do ex-prefeito e candidato a governador da Paraíba Ricardo Vieira Coutinho.

A conjuntura do segundo turno do pleito eleitoral de 2010 na Paraíba, mais que nunca, exige lucidez e prudência na hora de votar e não puramente pautas subjetivas, que não deixam de ser importantes mas que devem ser balizados pelo emprego da razão e da ciência. Exige sobretudo de pessoas que tiveram acesso às universidades seu compromisso com o auto-esclarecimento e o esclarecimento alheio, no sentido de avaliações baseadas em história de vida dos candidatos ao governo e em indicadores do desenvolvimento ambiental, sócio-cultural e econômico da Paraíba nos últimos anos sob as suas respectivas gestões.

Lamentavelmente, vê-se que a mensagem abaixo se apóia em um nível de completa desinformação sobre a relação política e desenvolvimento; muito pobremente sobre as manifestações artísticas, suas relações com a história expressando leituras de realidades sociais contemporâneas; e, sobretudo, assentada em visões anacrônicas e herméticas sobre o direito de livre escolha religiosa do povo brasileiro, o que é assegurada constitucionalmente pela Carta Magna do país e a ser garantida por governos democráticos.

Como prefeito da capital da Paraíba, Ricardo Vieira Coutinho garantiu o direito de expressão e a benção da gestão municipal por todas as religiões, em respeito à multiplicidade de credos que representa a diversidade social, na defesa de rituais ecumênicos acolhedores da crença de todas as pessoas e não somente daquela que conforma o conforto pessoal do gestor eleito para representar e governar a sociedade. Nos edifícios municipais, lá ele encontrou, inclusive, espaços físicos destinados exclusivamente a cultos da religião católica; na qual se formou, por exemplo, a minha família.

Conheço e respeito muito várias pessoas na foto intitulada "Ricardo Coutinho num terreiro de macumba". Testemunhei várias solenidades oficiais da PMJP, cujas bençãos foram garantidas por padres, pastores, mestres espíritas, pais e mães de religiões de origem africana. Vi a sua convivência pacífica e ordeira em todos os atos oficiais que testemunhei e agradeci a meu Deus, a santa Mãe Natureza, pela graça dessa experiência pessoal.

Conheço também as obras que, finalmente, se avolumam nos espaços públicos da capital agregando valor à paisagem urbana pessoense, concretizadas por meio de editais públicos de seleção, de iniciativa da Prefeitura Municipal de João Pessoa na gestão de Ricardo Coutinho e continuada na gestão do atual prefeito arquiteto e professor de Arquitetura Luciano Agra.

Ajuizadas por corpo de representantes de instituições como a Universidade Federal da Paraíba, o Instituto de Arquitetos do Brasil na Paraíba - instituição cultural de organização dos arquitetos brasileiros com 89 anos de fundação cuja bandeira por concursos públicos para obras públicas de arte e arquitetura faz história -, no ato representado pelo arquiteto e professor Marco Suassuna, a Fundação Cultural de João Pessoa, representanda pela educadora Fernanda Svendsen, a Secretaria de Planejamento da PMJP, representada pelo arquiteto e artista plástico Sóter Carreiro, e dois representantes da arte e da cultura contemporânea: o escritor e ator Waldemar Solha e o artista plástico Flávio Tavares.

Questionável, portanto, o juízo oficial que escolheu as obras dos artistas paraibanos? É o que garante a democracia brasileira. É defensável e valiosa a livre manifestação sobre as realizações públicas. Mais ainda quando carregadas de intenções que apostem no confronto de ideias que alimentem a sociedade com debates saudáveis, não respaldados por conceitos que se antecipam ao esclarecimento e apostam em visões reducionistas da diversa realidade social, buscando senão outra coisa que macular a boa fé de nossa gente.

Imagino que também a FACISA - Centro de Ensino Superior e Desenvolvimento - de Campina Grande, e não somente o candidato ao Governo da Paraíba, Ricardo Coutinho, experiente gestor público representante da coligação "Por uma nova Paraíba", maestro de uma grande guinada na mentalidade política dos paraibanos, esteja igualmente sendo vítima de opiniões públicas descréditas que lutam contra o desenvolvimento da civilidade na Paraíba, contra a conquista de gestões públicas democráticas e participativas e contra a urgente reforma do sistema político-eleitoral do Brasil.

Talvez estejamos imersos em uma crise brasileira sem precedentes, eventual rescaldo de nossa adolescente experiência democrática pós-obscuridade dos anos de chumbo de que egressou a história social brasileira há 22 anos: a crise da recusa ao pensamento ativo, a crise do embotamento da lógica racional, a crise do engessamento mental da atitude de parte da sociedade brasileira.

É para construir o desenvolvimento coletivo que as profissões foram e são inventadas pela sociedade. Não simplesmente para atingir-se as metas de um curso de nível superior, na maioria das vezes custeado por dinheiro público, um casamento, uma família e viver "felizes para sempre", e alienados do papel social que compete a cada pessoa, privilegiadamente esclarecida pelo acesso a estudo e a informação, o que tanto compromete a erradicação da miséria em que vive parte da humanidade.

Felizmente, o primeiro turno das eleições paraibanas já demonstrou que há uma maioria social na Paraíba que deseja mudança!

E é essa maioria que luta pelo desenvolvimento de nossas instituições públicas, que luta em defesa da civilidade presente, que luta pela conquista de gestões democráticas e participativas, que luta pela urgente reforma do sistema político-eleitoral do Brasil que precisa vigorar no segundo turno da eleições na Paraíba!

Oxalá, com a fé e a benção de todas as religiões!

Rossana Honorato
Arquiteta e professora de Arquitetura da UFPB

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De: Arquitetos Campina Grande
Assunto: FW: VAMOS SABER VOTAR PESSOAL!!!!! GRANDES ARQUITETOS

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From: facisa_arquitetura@hotmail.com
Date: Fri, 8 Oct 2010 21:10:08 +0300
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Ricardo Coutinho Consagra João Pessoa a Satanás

Já dizia Maquiavel que cada povo tem o governo que merece, no sistema democrático. Contudo, não acredito que a Paraíba possa merecer ter a frente do seu Governo um...

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Daqui a pouco, começa no Clube Cabo Branco a Convenção do Partido Socialista Brasileiro que tornará o ex-prefeito e militante histórico dos movimentos sociais da Paraíba, Ricardo Coutinho, candidadto ao Governo da Paraíba no Mandato 2011-2014.

Eu, Rossana Honorato, pela primeira vez em minha história de vida, serei apresentada pelo PSB como candidata a uma vaga para representar a Paraíba na Câmara Federal porque desejo e luto, todo dia, para que a Paraíba, o Brasil, a Mãe Terra e seus filhos construa uma vida melhor de se viver. Estou determinada e feliz, porque quero que a gente, junta, caminhe em busca da felicidade! Uma felicidade que não vê o dinheiro como uma riqueza acima daquela que somente o trabalho com prazer e a vontade de fazer o bem pode gerar.

Torço pra ver vocês por lá! De laranja&branco. De verde&branco. De roxo&branco. De amarelo&branco. De vermelho&branco...

NÓS SOMOS UM! E A VIDA A GENTE CONSTRÓI TODO DIA.

Um forte abraço! Minha gratidão à confiança da gente estimuladora.

Rossana Honorato, toda ouvidos, oxalá com sua vigília!

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terça-feira, 8 de junho de 2010

Passo a passo com RC

Rossana Honorato

Os anos eram os 80. Um hábito era caminhar à beira-mar do Cabo Branco, não importava a hora do dia. Eram cruzamentos esporádicos. As paradas para um rápido alô se faziam através de uma amizade comum, o amigo Mourão, hoje biólogo, doutor em Zoologia, professor da Universidade Estadual da Paraíba em Campina Grande. À distância, a gente via e já sabia quem vinha adiante, o perfil longilíneo e branquíssimo mais a frente a encontrar.

Já em 1982 o cenário era uma plenária no hotel Tambaú. O “Movimento em defesa da orla” redigia a “Carta de Tambaú”. De texto original à mão e caneta em punho, ia-se ajustando as adequações necessárias ao olhar plural dos segmentos sociais ali presentes. Era meu primeiro contato direto com a professora, ambientalista e ex-vereadora Paula Frassinete, que já avistara vez ou outra de bandeira verde em punho no meio da rua.

A lembrança se funde noutro cenário: Universidade Federal da Paraíba, Praça da Alegria do CCHLA ou Centro de Vivência, onde encontros e plenárias estudantis eram rotineiros.

Uma lauda e meia não é tamanho para fazer uma retrospectiva de como a vida reuniu a gente. A idéia surgiu em trocas no twitter. Lá, a gente se perguntava se ele, o ex-prefeito de João Pessoa por dois mandatos, o ex-deputado estadual da Paraíba por duas eleições, o duas vezes vereador de João Pessoa, sua história política e sua vida de habitante do bairro de Jaguaribe ainda não tinha gerado nenhuma biografia...

Na UFPB o movimento estudantil fervia. Ainda ressabiada com o trágico período da ditadura, a nova juventude brasileira, de língua solta, apreendia a vida sem amarras que o momento começava a permitir, ainda que premido pelas velhas práticas que tentavam manter a história vigiada.

Eu era estudante de Arquitetura e Urbanismo. Tinha lá meus 20 anos e coordenava a reativação do Centro Acadêmico de AU, junto a vários colegas, entre os quais Marco Coutinho. Por isso, terminei integrando o Comando Geral de Mobilização da invasão do gabinete do reitor Jackson Carvalho. Representava o Centro de Tecnologia por indicação do ex-vereador e ex-deputado federal do PT, e hoje PSOL, Avenzoar Arruda, então aluno de Engenharia Civil e ex-presidente do Diretório Central dos Estudantes.

Na Arquitetura, a gente cobrava qualidade da formação profissional e participação discente nas decisões que revisavam a estrutura curricular. A questão central que motivou a invasão do gabinete do reitor estava pautada, sobretudo, na luta pela reabertura do serviço do restaurante universitário, ação amplamente coberta pelos jornais da época em meados dos anos 80 do século 20.

Era comum avistar Ricardo nesses ambientes. Lá, também, a gente acompanhava a greve de fome dos estudantes pela gratuidade das refeições do RU. Coisa que levou gente como Wilma Cazé, Wagner Spagnul e dois Chico, o Viola e o César, entre outras pessoas que me foge à lembrança, a acampar no Centro de Vivência e dar-se a essa ação.

Foi no início dessa década que o PT foi criado na Paraíba. Eu apenas acompanhava, simpatizante como era chamada a gente não filiada. Assim me acostumei a estar presente em quase todas as suas agendas importantes de rua.

A memória salta para a década de 90. Era ocasião em que RC já estava envolvido com a política parlamentar, já houvera sido candidato. Aí, já éramos convivas e começávamos a interagir em diversos fóruns e nas boas folias de rua da vida.

Lembro também das audiências que acompanharam a redação final do texto oficial do projeto da Lei Complementar nº 02, finalmente publicada em dezembro de 1992, último ato do prefeito Francisco Franca. Lá, a gente se via de repente com a companheirada da luta por moradia e por reforma urbana, na cobertura do Litoral Hotel, para o lançamento do Plano Diretor. Àquela data, o Plano Diretor de Desenvolvimento Municipal de João Pessoa já lançaria os principais instrumentos da política urbana federal constituída somente em 2001, através da lei nacional nº 10.257, denominada Estatuto da Cidade.

Ricardo era o vereador da gente. Eu militava na reforma urbana e pelas bandeiras da política profissional da categoria dos arquitetos e das urbanistas, que, entre outras coisas, queria bradar nos 04 cantos do Brasil: arquitetura também é cultura!

O Instituto de Arquitetos do Brasil é a organização profissional mais sólida da categoria. Fundado em 1921, esteve presente nas principais lutas pela soberania nacional no século 20, sobretudo no período em que dava esteio a sindicatos e organizações impedidos de reunir-se publicamente.

Aqui na Paraíba, ele nasceu em 1980, mas passou o período de 1989-1993 fechado. Eu e o colega Marco Antônio Coutinho e um conjunto de jovens e antecessoras lideranças da política profissional na Paraíba retomava a intenção de reabilitar o Departamento da Paraíba. Foi o que a gente fez. Eu fui eleita presidente do IAB-PB e Marco Coutinho e outros colegas a forte diretoria que aprumou a entidade até a conquista da bela sede no Largo de São Frei Pedro Gonsalves no Varadouro.

Entra 1993 e lá estava a gente novamente, onde hoje é o Centro de Capacitação dos Professores da PMJP. A Assembléia convocada pela Prefeitura de João Pessoa tinha de eleger três representações das entidades profissionais do recém-criado Conselho de Desenvolvimento Urbano. Compareci na última hora, alertada pelo chamado do vereador Ricardo Coutinho. A sua ação determinada e sua credibilidade foram suficientes para que ele me apresentasse à assembléia e sufragasse o meu nome como uma das representações a integrar a gestão pioneira do CDU.

Dois projetos de lei, entre outros, foram diretamente importantes para o interesse da Arquitetura e do Urbanismo em João Pessoa e na Paraíba. Construídos junto com o vereador RC, uma lei descriminava o concurso público para obras públicas acima de mil metros quadrados; a outra lei dizia que qualquer edificação de médio porte só receberia a carta municipal de “Habite-se” se apresentasse uma obra de porte e significado para deferir a produção local no cenário das artes plásticas da Paraíba.

De outro momento, extraordinário, eu também tive o prazer de participar. A elaboração – a redação coletiva – da Lei Viva Cultura. Instrumento de representação e marco fundador de um novo fazer político na Paraíba e de consagração definitiva da intrínseca relação da trajetória política de Ricardo Coutinho com o meio cultural. Artistas, arquitetas, produtores de cultura se viram refletidos e referendados no “Mandato de todas as lutas”. Lei que se desenvolveu e hoje constitui essencialmente o Fundo Municipal de Cultura da PMJP, como é legítimo e saudável que aconteça com as leis que, aplicadas, ganham longevidade e sustentação como política pública.

De lá pra cá, uma sucessão de outras parcerias, ações conjuntas e muita comunhão na caminhada política de Ricardo Coutinho se firmou. Eram freqüentes os círculos para discutir as ações de seus mandatos que terminaram ganhando a denominação de “Coletivo Ricardo Coutinho”. Do Coletivo passei a integrar a sua assessoria formal a partir da gestão da assembléia Legislativa do Estado.

De 1995 a 99, eu investi paralelamente no curso de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciência Sociais e, sem que fosse meio de compensação, a presença de Ricardo Coutinho e de Paula Frassinete entre o rol de meus entrevistados em minha pesquisa de campo tornou-se motivo de enfrentamento diante dos rígidos critérios acadêmicos. Em minha cabeça, a relação vital e fluida entre academia e realidade estava prenhe de convicção. Defendi científica e politicamente a permanência de seus nomes entre os formadores de opinião que me ajudariam essencialmente a escrever os livros “A cidade entrevista” e “Se essa cidade fosse minha...”, publicados em 1999 pela Editora Universitária da UFPB. Outro saldo da Lei Viva Cultura, após a seleção pública para o incentivo cultural que lhe possibilitou a realização.

Em 2000, ainda na assessoria do deputado estadual, a gente tomou a iniciativa de organizar, eu, Sandra Marrocos hoje vereadora, e outros companheiros, a festa “RC2000 faz 40”. O nome era uma invenção espontânea sem qualquer lapidação que terminou pegando. A celebração dos 40 anos de RC bombou na recém-inaugurada boate Intoca do Centro Histórico de João Pessoa. E a gente ainda era 13.

De 2004 pra cá o desafio alcançou outra envergadura. A batalha mirou o Executivo Municipal. Eu integrava a equipe que construía o plano de governo através de seminários denominados “Cidade aberta”. Quando fui atropelada pela forçosa ausência de um mês, para mergulhar em livros e conquistar, pela terceira e última vez, êxito no concurso público que me vinculou definitivamente ao quadro docente da Universidade Federal da Paraíba. O regozijo da vitória apontava à seguinte que viria: era hora de mudar a cara de João Pessoa. Felicidade coletiva imensurável! Ricardo Coutinho prefeito! 74% de aprovação no primeiro turno das eleições de 2004.

De 2004 pra cá, a história está fresquinha. O maestro regeu uma orquestra de muitos sonhos. Sonhos que a gente sonhou junto e que viraram realidade que agora sonha com uma Paraíba também de cara nova.

E um novo desafio está posto: organizar a festa RC2.000e10 faz 40+10! Já-já é hora! Porque de desafios após desafios se fez essa história! Facilidade zero, muita luta e vitória. Das vitórias, as realizações!

Simbora, acordar a Paraíba, gente? Ela também merece outra história.

domingo, 30 de maio de 2010

Voltando-se para dentro

Rossana Honorato

Na experiência administrativa de João Pessoa, como ouvidora geral e coordenadora de implantação de um sistema de ouvidoria, impôs-se a necessária revisão de vários conceitos e paradigmas da ordem pública.

Surgiram denúncias de “infidelidade” ao projeto político de governo ou de uso do ambiente de trabalho para atividades políticas; estas, organizadas por agentes dele, a favor ou desfavor. De visões idênticas, uma ou outra podia ser caracterizada também pelo conceito de “perseguição política”; era só estar no lado oposto à outra.
O senso comum incorpora essas ideias recorrentes sobre as administrações públicas como “perseguição política”, caracterizada pelo desligamento temporário ou sumário de pessoas, seja através da suspensão de contratos de prestação de serviço, destituição de funções comissionadas “de confiança” e, principalmente, uso de retaliação por transferência de ocupação e mesmo de ambiente de trabalho dirigido a pessoas com vinculação estável.
Essas ocorrências levaram a pensar sobre o compromisso de uma gestão governamental com o projeto político definido pelo voto direto da sociedade como o modelo a ser implantado e praticado na duração de um mandato. Receita prescrita no programa de governo da candidatura eleita.
Está claro que resistências haverão de haver, e isso é bem saudável; sobretudo em instantes como o que vive o governo estadual na Paraíba sob o alvo de questões sobre sua legitimidade. Se há algo com que se concorde no processo de uma Paraíba recente que teve seu governo cassado é que novas eleições deveriam ter de havido para garantir a necessária legitimidade e responsabilidade para com a administração do desenvolvimento sustentável do Estado.
Certamente, há de faltar neutralidade nesta abordagem. Falta isenção e decerto sempre faltará a quem se disponha a uma análise. A reflexão é própria de um conjunto de circunstâncias e experiências que constrói o pensamento. Já cria nisso desde a vivência de pesquisadora da Universidade Federal da Paraíba, no curso de projetos de investigação de objetos históricos, teóricos ou empíricos.
Na Ouvidoria Municipal, ainda que eivada de contaminação política, o tratamento buscava ser equânime e jamais pré-conceituoso. Se faltava à condição de inserção na função a autonomia inerente a uma ouvidora pública, era no exercício da auto-vigília que a gente buscava sustentar-se para a tarefa responsável e responsiva de modelação e gestão do novo órgão.
A experiência trouxe uma vitalidade pessoal à condição política, porque com ela uma disposição a mais se acresceu ao desejo de apreender a natureza humana, a da outra pessoa e a da gente própria no curso da gestão pública.
E se havia quem pensasse que a gente iria pactuar com a prática persecutória ou cúmplice, oriunda de agentes de governo de todos os partidos políticos ali alçados à condição de coligação para governar o município, bem como da sociedade vigilante, o que a gente perseguia mesmo era a busca da consciência coletiva sobre os disparates entre o discurso e a prática e o compromisso para com a história do presente e do futuro.
Se se integra um partido político da base de um governo e esse partido se divide com vista ao projeto político que comanda o governo, determinado pelo voto da eleição que o consagrou socialmente, das opções, uma. Ou se acompanha claramente a parte que mantém o apoio ao governo. Ou desse governo se aparta, por força da perda de identificação com ele. Ou se ainda assim nele se mantém que calada fique a boca e o direito de proclamar internamente apoio ao projeto outro, com base numa idéia irrefletida de compromisso partidário em um país de partidos políticos cada vez mais inconsistentes ideologicamente.
Ocorre que a falta de oportunidades e de perspectiva empregatícia no estado da Paraíba é tão alta que muitos bons profissionais técnicos terminam por não encontrar ambiente no mercado de trabalho, seja também pelo enorme desequilíbrio entre a oferta de recursos humanos egressos das unidades de ensino técnico e superior, seja pelas poucas chances de concursos públicos.
E assim acentuada fica uma carência na visão formal de ensino, residente na falta de formação empreendedora de que tanto se ressente o ensino profissionalizante. Formações profissionais que não encaram o desafio de participar do mercado do lado da roda que gira a renda e gera empregos, terminando por profissionalizar pessoas em busca de empregos e sem visão do futuro, de cidadania pró-umbigo e sem condição de participação ativa na própria história.
Impera assim a visão dos oportunistas sobre a cadeia de benefícios que se assoma através da gestão pública, deteriorando e atrasando ainda mais o processo de erradicação da miséria e da ignorância das populações mantidas estrategicamente nessa condição, abaixo de níveis aceitáveis de clareza sobre a realidade.
Na cabeça mora um ideário de gestão pública em que a base da inserção na estrutura administrativa é formada por competência e capacidade de resolução de problemas em um sistema eficiente de concurso público e através de um esforço desmesurado em praticação democrática. Urge superar o atraso mental e os níveis prevalentes de esclarecimento e consciência social do estado da Paraíba e do Brasil.
João Pessoa já palmilha esse caminho. A Paraíba está já chegando lá, ainda que circunstâncias civis momentâneas apontem perspectivas de prorrogação da desordenação pública vigente, pautada estrategicamente em relações de conchavos e contratos pré-estabelecidos, em benefício de si mesmas.
Essa questão, embora diretamente arrolada ao tema, é pano pra outra manga. Mas cabe reconhecê-la como aquela doença auto-imune que corrói gradativamente por dentro todo dia e a troco de qualquer coisa quatro anos mais.
Mas a Paraíba da gente quer saúde, educação, cultura e participação social de mulheres e homens! Novos pensamentos e indicadores no jornal racional.

Perspectivas de desenvolvimento sustentável pós-Cop-15

Perspectivas de desenvolvimento sustentável pós-Cop-15

Cuide bem da natureza
Ela é parte de você
Cuide bem da natureza
Que ela cuida de você
José Augusto e Paulo Sergio Valle

O conflito de avaliação sobre o saldo da reunião internacional do clima de 2009 em Copenhague (Dinamarca) derivou da grande expectativa que envolveu o evento sobre o acordo que adviria pós-Protocolo de Quioto, resultante da 3ª Conferência das Partes, realizada em 1997, no Japão. Realizações importantes iniciadas já há 15 anos(!) pelas Nações Unidas, que resultaram nas conferências anuais de monitoramento dos avanços ou retrocessos, instância suprema da convenção.

Sobretudo diante do tanto de impasses e resistências dos países ditos desenvolvidos e/ou em desenvolvimento ante as metas a definir entre as nações para a redução das emissões de gases poluentes sobre a atmosfera em suas estratégias de desenvolvimento.

Grande expectativa se mantém diante da necessária mitigação das conseqüências geradas pela era Bush, cuja recusa em participar das reuniões anteriores deixou rastros para o enfrentamento do problema para todo o mundo. E muita esperança se adiantou à postura de Barack Obama e a influência dos EUA sobre os resultados da Conferência.

No contexto da discussão mundial sobre as mudanças climáticas, o suporte global para um empenho internacional de adaptação à ordem do desenvolvimento sustentável impera porque se trata de problema para lembrar que o mundo é a gente e a gente é e o mundo.

Em recente coluna de Rozália Del Gáudio*, lê-se que a humanidade consome atualmente 30% a mais de recursos naturais que a capacidade de renovação da Terra. E que a ONU chamou atenção neste final de 2009 para um número de vítimas da fome além da marca de 1 bilhão. Informações que revelam um dos paradoxos mais constrangedores do mundo que é a existência de padrões de consumo acima de necessidades pessoais essenciais mediante carências assustadores, como a fome e a miséria, que não parecem diminuir e, pior, com o que a gente parece ter se acostumado a conviver.

A 5ª Reunião das Partes do Protocolo de Quioto, que se deu paralela à COP-15 definiu metas aquém do que se esperava, sobretudo para os países ditos ricos, para o segundo período de compromisso do tratado, de 2013 a 2017. Embora, até 2012, os países desenvolvidos signatários do Protocolo devam buscar reduzir de maneira significativa suas emissões de carbono na atmosfera, contribuindo para atenuar o perigoso aumento da temperatura do planeta.

O Brasil vem desenvolvendo importante protagonismo na dentro do bloco das nações em desenvolvimento, em que pese ainda a carência de visão de suas principais lideranças públicas e privadas. E isso tem repercutido na agenda climática, levando-o à representação inclusive dos países pobres.

Para a glória nacional, foi, por exemplo, o primeiro País a assinar a Convenção do Clima, desde a criação das conferências internacionais. E destacou-se também através de negociadores brasileiros na criação do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), desenvolvido a partir de proposta da terra Brasilis.

Para manter essa posição de liderança no cenário internacional, o governo brasileiro precisa mostrar seu comprometimento com as políticas internas, para além dos resultados da COP-15. No campo das ações domésticas, apesar de todas as dificuldades, o Brasil já mostra ao mundo e pode mostrar muito mais que é possível buscar conciliar desenvolvimento com preservação ambiental, especialmente no que diz respeito ao combate ao desmatamento.

O combate ao desmatamento do governo federal, em ações integradas com estados e municípios, revela que o seu comprometimento com a redução das emissões de carbono na atmosfera está gerando resultados positivos. O país chegou a surpreender positivamente a comunidade internacional, ano passado, quando apresentou seu Plano Nacional sobre Mudanças do Clima. E nesta COP-15, outro anúncio elevou o prestígio brasileiro: a aprovação do Fundo do Clima para a política nacional.

Fundo que vai movimentar recursos para financiar ações de adaptação e mitigação às mudanças climáticas, com medidas de padrões ambientais e metas de redução e remoção de gases do efeito estufa, com recursos a instrumentos de controle. E a boa nova é a previsão de aplicação de critérios diferenciados em licitações públicas para favorecer produtos e serviços que signifiquem maior economia de energia, de água e de menor emissão de gases poluentes e o aumento de investimentos em energias renováveis.

Essas notas nos enchem de ânimo para fechar 2009 e pisar em 2010 focando o maior desafio para uma efetiva política de desenvolvimento sustentável. E o maior o enfrentamento ainda se vislumbra na resistente mentalidade de lideranças políticas, muito pouco dedicadas à informação e sobretudo à auto-educação para aderir à necessária mudança de paradigmas.

Mas o que mais falta, de verdade, é simples compreensão para toda a gente, e não somente a mais humilde, sobre essas relações significantes das consequências da Conferência das Partes para o futuro da vida no e do planeta.

A mudança de que a gente precisa passa, sem dúvida, pelo estabelecimento nas políticas públicas brasileiras de um sistema estratégico de fundamento de valores essenciais: ética, técnica e saber. Relações que não podem esmorecer entre política partidária e gestão pública. E isso pode começar pela reinserção nas grades curriculares do Ensino Fundamental e Médio da disciplina Moral & Cívica.

Que em 2010 o Brasil seja mais exitoso na gestão pública! Que a gente decida e controle a qualidade do quadro das representações políticas!

2010 lá! Oxalá!

terça-feira, 24 de novembro de 2009


Escuta cultural


Para ouvir basta abrir os poros (...)
Quem ousaria Dessas vozes duvida
(A primeira pedra, Carlinhos Brown, Marisa Monte, Arnaldo Antunes)
Reabertura do Banguê. A avant-première que assalta o olho sensível é a Praça do Povo: quatro ou cinco carros acostam ao lado da rampa de subida ao cinema.
Observação registrada, rampa em escalada, outra acontecência: murmúrios revelam a curtição da pipoca com guaraná e resvalam a lugar conhecido: “_ pôxa! Quanto tempo já? É sempre assim. Esquecem o principal”.
O principal é o som, impossível de reter a platéia para o fim a que foi chamada.
A companhia do grupo conduz a outro plano. Repassagem pelos carros enfileirados. Diante de seus guardiães, a gente pára e pergunta, já querendo municiar-se para alertar à presidência da Fundação: “_ Por gentileza, de quem são esses carros?” E escuta a justificativa de bocas de santa plausibilidade: “_ é do governador e de sua segurança”.
Irrequieta como sempre, impossível não emitir a mensagem: “_ Digam ao governador pra prestar atenção à praça, que é do povo”. Nada assim que exija nenhum esforço cognitivo superior ao do senso comum.
Motivo de aperreio social desde seu nascedouro, agonizante em busca de sustentabilidade administrativa e financeira, aos galopes o Espaço da Cultura se transforma em qualquer coisa que lhe garanta a sobrevivência. Intrínseca expressão soberba da cultura da gente.
Por qualquer das frentes que se entra, o primeiro apelo visual da cultura é mercadológico. Comércio de roupas e outros estímulos ao consumo desenfreado se vão incorporando à complexa cultura da economia mundial que rouba avassaladoramente espaços de alimento da alma e gera uma profusão de nichos que dão comida ao corpo faminto de sentido e de identidade.
Como estacionamento privativo virou a mais rentável mercadoria das cidades contemporâneas, a gente precavê o espírito ante o choque de ver a cultura do Espaço sustentada por um “parque” de exposições de veículos.
Já não é curioso que, na história do país, gestores como a gente cheguem a carecer de instrução e desconheçam mesmo a razoável aplicabilidade pública da técnica e da ciência, mas a mínima educação doméstica e a sabedoria popular pregam há milênios que o exemplo é o melhor dos instrumentos de formação de valores de uma sociedade.
Pipoca, guaraná, pompa e tudo o mais: carros estacionados do lado da tela para assistir o cinema... que não é mudo, mas é ruidoso. Quem ousar duvidar das vozes ali presentes, basta abrir os poros. Abrir os poros para aprender a escutar.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Boataria - a que será que se destina?



Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
Cajuína, Caetano Veloso.

Com a graciosa oratória com que consagrou o seu reino, o dramaturgo paraibano Ariano Suassuna já externou a platéias diversas: _ Tem coisa melhor do que falar de um amigo pelas costas? A gente impossivelmente desatenta gargalha! E continua: _ Veja bem: o sujeito desafoga um infortúnio do espírito e ainda preserva o amigo... e se solta numa risada que ecoa...

Do alto de sua sabedoria, o belo velho Suassuna empolga quem lhe ouve com a autenticidade do mestre que fez e faz da vida sua melhor arma, sua grande arte. E para bem vivê-la, divide com galhardia o seu mundo em duas partes: o da gente que com ele concorda... e os equivocados... Risos...

Certamente que a graça do prosador remete a ranhuras tão comuns à vida cotidiana, egressas dos desencontros da convivência, fenômenos que tão bem provam a natureza das relações humanas, comunhão de aprendizes na escalada da vida. De quando em vez, senão todo dia, a gente faz isso. Na ânsia de um desabafo, solta o verbo sem importar-se com o resvalar em distorção ou não do real, com o impacto disso sobre a vida.

Frequentador assíduo de conversas em toda parte, não há quem não tenha sido cúmplice ou vítima de um deles. O boato cresce exótico feito bola de neve em situações de total descompromisso com as conseqüências. Mas também estoura como um balão que se espeta quando, raramente decerto, se dá ao trabalho de conferir-se antes de passar-se adiante. Quando sobrevive a qualquer checagem, vira “lêndea”.

O fenômeno se repete de modo muito parecido. O que ninguém sabe exatamente de onde saiu passa de boca em boca e, em questão de horas, se tanto, com arremates de crochês e bordados vira verdade verdadeira... “Eu não sei, só sei que foi assim”...

Uma frenética busca pela rede mundial de comunicação (olha uma fonte: www.4tons.com/0238.doc) atesta que se trata da mais antiga modalidade de troca social de informação. Antes da invenção da escrita, o boca a boca era o único canal de comunicação social.
A imprensa, capaz de proporcionar distinções entre boato e a verdade dos fatos, apurando e transmitindo informações, presumidamente confiáveis, dá a sua parcela de contribuição à geração e à difusão de boatos.

Boatus, do latim, significa “mugido, grito agudo”. Contam que na Antiga Roma os imperadores, certinhos de que a plebe, como eles, tanto gostava de um cochicho ao pé do ouvido quanto de uma luta de gladiadores, nomeavam delatores (do latim delatio) com a missão de mandar ver nos ouvidos pelas ruas.

Quando a vox populi sinalizava prejuízo à imagem do imperador, os delatores, eficientes agentes de um autêntico SNI da época, versados na arte da guerra psicológica e coisa e tal, lançavam boatos na contramão da história.

Há ditos que resistem aos mais contundentes golpes da realidade. Mas uma coisa todos têm em comum: sua fonte – primária – precisa ser “anônima”. Rastrear a sua origem é tarefa tanto mais difícil quanto mais complexa é a sociedade que lhe dá colo.

Pra ser eficaz, o maldito deve machucar a vítima ali onde dói mais. O bom mesmo tem cara, cor e cheiro de verdade, e, ainda por cima, o aval de gente tida como gente que sabe das coisas. Às vezes, é fato, o danado pode decorrer de um mal-entendido, uma conclusão precipitada do que se vê, lê ou escuta. Uma frase captada, um gesto interpretado, e pronto – faz brotar uma impressão que, levada às últimas conseqüências, pode envenenar a reputação de gente inocente.

O meio artístico é um campo fértil para a germinação de boatos, às vezes criados ou ampliados por publicações sensacionalistas. Não raros são os que se usam para fazer mal a gente pública. Rumores apelam comumente às questões de ordem moral ou emocional: estórias das quais, se pensa, ela não se conseguirá livrar ou só livrar-se-á quando a Inez já tarda morta. Como não há quem não goste de falar mal generalizadamente da gente pública, essas estórias circulam a jato. E proliferam feito cogumelo após a chuvarada.

Outro pulo na web e a gente encontra o relato de um francês que criou em Paris, em 1984, uma Fundação para o Estudo e a Informação sobre os Rumores. Rapidinho, Jean-Noël Kapferer montou um acervo de 10 mil boatos e escreveu Rumeurs (“Rumores”). O pescador de boatos tenta explicar como eles nascem e sobrevivem, apesar (ou por causa) da avalanche de informações produzidas diariamente pelos meios de comunicação.

A gente carrega pela vida afora uma bagagem de idéias, opiniões, imagens e crenças sobre o mundo à volta, a maioria adquirida simplesmente por ouvir dizer. Mas nem todo boato é boato, assim como nem toda notícia é verdadeira. Se o ditado também se sustenta como boato, parece certo é que todo boato tem alguma verdade a ensinar sobre o comportamento da gente e sobre o funcionamento da sociedade em que se vive.

Se existe, a que será que se destina? Certamente que a blasfêmia também atesta alguma admiração da gente que fala sobre a gente de que se fala. “Quem de mim fala por trás algum respeito me traz”. A gente é complexa! O que o contador Suassuna tantas vezes já provou com os causos relatados pelo matreiro fofoqueiro Chicó em “O auto da compadecida”.

O apelo à vulgaridade do recurso sistemático à boataria só evidencia uma radiografia de um mundo cada vez mais dominado pela insensibilidade, pela lei do mais forte, ou pela razão pura, sem sentimentos de beleza, amizade ou amor, usina empenhada que revela uma patologia crescente da comunicação social.

Por falar em comunicação, a 1ª Conferência de Comunicação da história do Brasil foi iniciada. Pela Municipal. E se tem uma coisa de que o país urgente precisa ajustar é a tal “liberdade de empresas”, porque a sua gente barganha a liberdade de opinião... plena! E a oportunidade em João Pessoa está posta para refletir o benefício e o malefício da indústria da boataria para o desenvolvimento da civilidade da gente.

De modo, gente amiga, que mais do que se diz, se fala, se propaga, sobretudo importa o que a gente faz, o que a gente desfaz, o que a gente refaz. Essencialmente importa o que a gente já fez. O que fundamentalmente implica o que a gente ainda será capaz de fazer. E fará.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009


Governança e governabilidade

Eu e os meus companheiros
Queremos cumplicidade
Pra brincar de liberdade
no terreiro da alegria
Chico César

A governabilidade tem sido expressão recorrente no cenário dos poderes públicos do país. Executivo, Legislativo e Judiciário investem sobre o tema. A sociedade organizada e os meios de comunicação social o replicam. Como a cada cabeça equivale uma sentença, o significado atribuído à palavra varia conforme se conjugam essas forças políticas no contexto da civilidade nacional. À capacidade de sustentabilidade da governança, convém aferir a sustentação pretendida.

Tentativas de reflexão são abundantes acerca das possíveis causas e dimensões de uma notória crise de credibilidade social da gestão pública brasileira. É o que se ouve e lê, correntemente: o descrédito – popular – que se lhe circunda; vide as mobilizações na web já não tão recentes para o voto nulo. Não surpreende que se trate de traço parental com a história da gestão pública, embora haja quem depreenda como coisa da marca oficial contemporânea. Um pouquinho de conhecimento da história do Brasil parece ser suficiente para isto.

A reforma do Estado e a redefinição de suas funções já se evidenciaram imprescindíveis a sua adaptação aos, necessariamente novos, desenhos políticos da legítima e complexa representação dos interesses sociais condutores e/ou afetados pelas políticas governamentais. Recursos à coalização de forças sociais e a aplicação de instrumentos de co-gestão revelam um viés estruturante no processo de implantação das políticas públicas elencadas a partir de um projeto de governo.

Contudo, agentes públicos ou cidadãos que compreendem necessária a formação estratégica de coalizões políticas para viabilizar uma governança, porque mantêm o foco na busca de eliminação de gestões desnorteadas quanto ao desenvolvimento sustentável, são firmes em abrir perspectivas que se empenhem em escapar de modelos neoliberais de gestão da economia pública e apostar em ordens de caráter socialista e socializante.

Parece armar-se uma retórica em torno da construção de um Estado que, sem negar a complexidade intrínseca de sua desafiadora relação com o capitalismo contemporâneo, atente para a premente necessidade de humanização da gestão pública, e, ainda que restrinja sua atuação na produção direta de bens e serviços, reforce sua função reguladora das políticas públicas, enfatize seu papel coordenador das agências governamentais nos três níveis da organização federativa e reoriente suas próprias funções de controle, fomentando gradualmente a co-responsabilização da sociedade através de mecanismos e instrumentos promotores da civilidade e de esforçada praticação democrática.

Uma vez retomado o crescimento econômico, é o desenvolvimento político - o desenvolvimento das instituições democráticas - a pauta da vez do Brasil. A tentativa até aqui de pensar governabilidade e crise de governabilidade, busca remeter à origem estrutural-funcionalista dos sistemas políticos brasileiros. E aí compreender a urgência da reforma política no Brasil.

Uma reflexão que bem serve às necessidades que a sociedade incrédula demanda. Se por um lado, engloba características operacionais do Estado - eficiência da máquina administrativa, novos formatos de gestão pública, mecanismos de regulação e controle -, por outro não se deve desviar de sua dimensão político-institucional de capacidade de liderança e de coordenação, desde as iniciativas por coalizões de sustentação do governo, processo decisório, tradição ou inovação da representação de interesses, relações entre os sistemas partidário/eleitoral, àquelas arquitetadas entre os Executivo/Legislativo e o grau de interação público/privado na definição e na condução do desenvolvimento sustentável, com empenhada atenção à postura autoral do Judiciário.

Senão, qual a perspectiva para que os partidos políticos constituam-se efetivamente em reais parceiros do desenvolvimento, cumprindo sua função agregadora dos interesses da sociedade e responsabilizando-se perante o eleitorado, demostrando-se capazes de tomar iniciativas de propor políticas necessárias ao desenvolvimento sustentável socioeconômico, político e cultural do país? Vide o predomínio de um constrangimento eleitoral sobre o comportamento de parlamentares no Brasil; sintoma especialmente relevante quanto aos custos sociais que lhe são inerentes. Constrangimentos que afetam o comportamento dos partidos governistas e dos de oposição, de manifestação bienal a cada eleição, afetando diretamente a sustentabilidade administrativa das políticas públicas.

O que se tenta refletir aqui é o papel de todos os governantes do Brasil, qualquer que seja sua convenção ideológica, e a recorrência de seu envolvimento em um padrão de interação conflituoso com os sistemas partidário/eleitoral, impondo-se um crucial gargalo sobre a capacidade governativa.

Cabe então arrematar com uma pergunta essencial: que democracia a gente é capaz de construir? Afinal, hoje, qual é a liberdade brasileira para falar sobre e praticar a democracia?

Ei, gente do Brasil, e o terreiro da utopia?

Eu e minhas companhias... Aiá...

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Faça amor, não faça guerra


E como começo de caminho
quero a unimultiplicidade
onde cada homem é sozinho
a casa da humanidade.
Tom Zé

Em meados do século 20, a cultura hippie mostrou sua face ao mundo. No auge de um verão de São Francisco (EUA), pessoas de todos os cantos e cores celebraram o desejo de igualdade. A flor, o símbolo mais marcante, aposentou a tesoura de cabelos de mulheres e homens. Pés desnudos em sandálias sob túnicas coloridas bailaram pelas ruas da cidade, propagando a paz, o amor e a tolerância em comunhão com a Mãe Natureza.

A motivação – ainda hoje por alguns perseguida –, as injustiças, desigualdades e contradições da sociedade americana, provinha sobretudo de uma juventude, rica e escolarizada, incomodada com o poder econômico-militar. Jovens que se desprendiam do conforto dos lares maternos, rumando a uma vida partilhada em cidades ou comunas rurais. Queriam apenas paz, para si e para o mundo. Opunham-se a todas as guerras, incluindo a que o seu próprio país travava. Defendiam o amor sem limites, a livre atividade sexual.

A música pop, com as suas baladas, e o rock e o seu frenesi, eram um poderoso meio de expressão de sua filosofia. Composta sob o efeito de drogas, ouvida em igual circunstância, criam libertar suas mentes. O desenho "psicodélico" de cartazes e camisetas desalinhava letras e imagens, reproduzindo a mensagem viva no sangue sob o efeito do êxtase.

Tal utopia espalhou saldos pelo planeta. O amor aquecendo ideais e alguns outros se tentando firmar ainda hoje como recurso singular a tolerar a diversidade da vida. A equidade de gênero, de etnia, de orientação sexual, o jeito alternativo de viver, a prática da respiração, meditação e yoga, alimentação saudável e plena imersão na irmandade da Mãe Terra.

Desafio premente da sociabilidade contemporânea: a condição humana. Essa, corriqueiramente atropelada pelo vagão da disritmia da sensibilidade, infere o grau de impacto da subjetividade na gestão de qualquer ordem ou esfera. Tema que, via de regra, supõe-se superado à senil maturidade do processo civilizatório, encenada conforme os papéis desempenhados no teatro da história.

Não é mero propósito deste devaneio atiçar o regime da oficialidade brasileira. Essencial é provocar a brasílica social: em que medida se cobra dos políticos aquilo que se pratica corriqueiramente. Valores que a ação cotidiana - doméstica, do trabalho, do lazer, das relações amorosas e familiares - reproduz assim... um dia após o outro. Hábitos havidos por comunhão, já que no Brasil a desonestidade é inclusive evocada como matriz conceitual de sua fundação: _ Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo o mundo rouba, dialogam Ana e Lucinda.

Se cada pessoa, ao vislumbrar nichos de transformação social, neles investisse sua energia e força, decerto que lemas como “Olho por olho, dente por dente”, “Bateu, levou”, nada de deixar de levar alguma vantagem pra casa – vide a lei de Gerson, “a melhor defesa é sempre o ataque”... essas velhas máximas seriam ainda contemporâneas do terceiro milênio...

Entendem algumas pessoas, ou entendiam, que não se faz transformação social sem revolução armada – para o Brasil, e um tanto de outros países, dura memória cravada em camadas da pele. Outras se utilizam, ao menos sumariamente, de cinco comportamentos: se conformam e silenciam; as que não se resignam e expelem indignação aos quatro ventos, existe ainda quem se aquiete mas, em tendo chance, tira proveito, e aquelas que vão às ruas ou aos gabinetes e põem a cara à tapa.

Também há quem silencie, se vai transformando dia-a-dia: dança em círculos, medita, respira profundamente, se empenha em praticar o que prega e deseja que a vida seja. Diante da expectativa de mudar a conjuntura da realidade através do outro, investe em si mesma. Expande o próprio espírito, se recicla, se transmuta e reverbera na energia vital, com a força de uma gota de água salgada do Atlântico, buscando o amor e evitando a guerra. Crê, é o que se ouve dessa gente, que “tempos difíceis existem pra aperfeiçoar o aprendiz”, sem se dispor, como Lucinda, a quebrar o nariz com a mentira de maus brasileiros.

As insondáveis constituições da alma e da espiritualidade certamente não configuram temas para agendas oficiais. Mas, atitude e postura está sob o poder de qualquer um. Tom Zé aposta na “unimultiplicidade”, a casa da humanidade. Carolina e Jorge replicam: já que não dá pra mudar o começo, se a gente quiser, a gente muda o final. Vigília e auto-vigília todo dia... e a gente muda o Brasil!

* “Make love, not war” - palavra de ordem do movimento Hippie.
Pressa & paciência

Eu não sou dono do mundo,
Mas tenho culpa porque sou filho do dono.
Zezinho Barros

As polaridades fazem parte da história da humanidade. Opostos se alternam a todo tempo, impelindo à compreensão de que a razão carece de contraponto, impõe uma visão dualista da existência. Positivo, negativo. Certo, errado. Preto, branco. Azul, encarnado. Verdade, mentira. Direita, esquerda.

Ah, mas opostos também se alternam o tempo todo confundindo o senso comum acerca das muitas verdades de que a realidade é feita, e de que a razão exige a arte do diálogo, ainda que a tese ante seu contrário conquiste um curioso consenso nem sempre dialético.

Muito cedo, o conceito de lateralidade é introduzido na percepção humana. Logo na infância, a escola introduz exercícios para aferir o grau de discernimento mental das pessoas pequeninas através do funcionamento de seus dois hemisférios cerebrais.

Como mais uma evidente demonstração da força da natureza, constata-se que a organização do cérebro em dois lados, direito e esquerdo, implica a necessária simultaneidade da ação bipolar para a compreensão global da vida. A diferença é a base da comunhão. Toda a manifestação sensorial perpassa os acontecimentos motores do lado oposto do corpo e do espaço. Sem desdenhar do senhor da razão, o tempo, essa quarta dimensão da visão do mundo e os dividendos que do seu transcurso se maturam, o indivíduo e a coletividade.

A abordagem é esquemática, reducionista por força do espaço de expressão e da pretensão de uma interpretação do instante fugidio. A intenção, contudo, é contribuir para avistar as luzes que repercutem as diferenças humanas no jogo da vida social. De que maneira cada cérebro ora se apóia mais nas capacidades do hemisfério esquerdo – em que a análise, o raciocínio e a lógica preponderam –; ora se fia no hemisfério direito, valorizando a intuição, a paixão, a visão sumária, a imaginação.

Por várias vezes, um desenho de dois burros amarrados a uma mesma corda instintivamente buscando saciar a fome e comer seu monte de feno, cada qual em uma de suas extremidades a puxar a corda para o seu lado, foi utilizada em sessões de capacitação de pessoal nas empresas. A lembrança reconstitui a representação de uma lamparina, a que uma das partes é presenteada, garantindo-lhe percepção e ainda poder de convencimento a outra de que comendo juntas, de cada vez um monte de feno, o cenário é contextualizado: esforços conjugados, força-tarefa concretizada. Uma experiência simbólica para a fina flor da sensibilidade de, certamente, visionários dos pontos de fuga não comumente observáveis na linha do horizonte.

A experiência recente de jovens agentes públicos, sensíveis aprendizes da vida em busca de desenvolvimento para toda gente, permite observar quanta prudência uma sociedade, por vezes comodamente incauta, espera de gestores delegados e neles projeta a salvação da pátria. O enigma da política certamente enche os olhos das ruas de impressões miraculosas.

Curiosamente, a perfeição humana, a começar dos distúrbios inerentes da lateridade, se inviabiliza diante da Mãe Natureza. Felizmente. Se a vida perfeita fosse, o que seria mesmo viver? Mas é em busca da eliminação dos defeitos da realidade social que o discurso da cobrança corre. E tem que correr mesmo. E compreender-se parte e também fazer a sua.

Desde que o mundo é mundo, evolução e retrocesso se abraçam e se rejeitam em movimentos cíclicos. E o futuro? O futuro, a gente tenta pilotar. Porque ele chega. Chega sem tempo nem piedade e, sem pedir licença a Toquinho, muda a nossa vida e depois convida a rir ou chorar.

A história da construção do futuro é a história da construção do passado e da desenfreada busca por felicidade que a humanidade carrega ao longo do processo civilizatório. Cientistas ensimesmados, questionam: _como a agência do desenvolvimento econômico não se dá o desafio de encontrar saídas para a superação do vazio de um prato de comida? E, ainda assim, há humanidade que fecha os olhos pra não ver. Por amor à vida, Zezinho Barros pede a Flávio José que repita, a todo instante, e FJ replica: “Boi com sede bebe lama. Barriga seca não dá sono... Desigualdade rima com hipocrisia. Não tem verso nem poesia que transforme o cantador. A natureza na fumaça se mistura, morre a criatura e o planeta sente a dor”.

É que o processo civilizatório é a cara da gente. O bom e o mal é a gente e a gente pensa que não é com a gente. A gente é avanço. A gente é retrocesso. Agente é toda gente: governo e sociedade. Cresce a fome. Cresce o poder?! E a pressa para eliminar da vida o vazio de comida?

Haja paciência para compreender o jogo das polaridades humanas como parte da caminhada!

A transformação social exige pressa. Sem dúvida, a miséria pede extinção. Mas a condição humana impacta as relações sociais através do cotidiano. O que se dirá de cada maturidade conjugada a outra, e a outra, a mais outra...

Paciência? “O diário desse mundo tá na cara.”
O bochicho de Cem Réis

A cidade não pára,
a cidade só cresce
O de cima sobe
e o de baixo desce.
Chico Science

Assim já era o antigo lugar: cidadania ativa em tempo real. Se antecipando à internet, ali no Ponto de Cem Réis que precede a segunda década do século 20 a notícia mais fresca se anunciava num instante entre os passantes. A atual e, pelo menos, sexta intervenção municipal na área recupera a mais tenra de suas identidades: a do encontro social.

Graça e glória são sentimentos que se misturam em visita ao novo velho ponto, sobretudo os dois dedos da prosa fácil que rapidamente se troca com o imortalizado cancionista paraibano Livardo Alves, dois pés de bronze da Torre aquietados no Centro da cidade.

Tão simbólico é o lugar para tanta gente que várias manifestações por toda parte se anunciam. Falas, escritos ou fotografias registram sentimentos de prazer, diante nova conquista, ou de atávico saudosimo do antigo canto.

Há cidades que não crescem. As boas cidades de se viver, contudo, não param. É pura expressão da dinâmica urbana, sua contradição e desafio: a auto-sustentabilidade espacial diante da atração do tempo de oportunidades para o desenvolvimento humano que o crescimento urbano pode gerar.

Alguns lamentam: reclamam o velho lugar. Cantantes das simpáticas paisagens sombrias o repelem: “árido”. E os que vibram, exultam com o ganho urbano. Recompõe-se um largo outrora tão festejado, que bem pode favorecer à humana boca o bendizer.

A aridez verbalizada tem raiz na origem da forma da cidade. Desde a mais singela das referências citadinas, a clássica ágora romana, desenhos e modelos de configurações urbanas foram desenvolvidos em busca da essência da morfologia social. O medieval período das trevas investigou formas e tamanhos ideais de cidade que buscavam induzir à potencialidade de reconhecimento mútuo de seus próprios habitantes. O mero estranhamento do outro era a lógica advogada à reprodução de uma nova urbe, dali bem distante. Uma regra que a cidade moderna não consolidou face ao desafio maior da remota comunicação global, entre eles o desenvolvimento dos meios de transportes e a fluidez que a urgência da vida demandou ao tráfego de veículos, curvando passeios públicos aos conflitos da diversidade da circulação viária.

Talvez a ágora romana seja a primeira tipologia de espaço urbano desenhada para cumprir o papel posteriormente dado às praças. No contexto das cidades, em que se inseriam suas reproduções, aspecto simbológico da cultura local era a materialização de uma idéia de público. Lugar de partilha coletiva, claramente delineado: espaço de praticação democrática, locus, por excelência, da discussão e do debate de idéias entre concidadãos.

Por isso, a perenidade da velha praça “seca” se faz tão viável aos tempos das cidades. E não conflita com a grande demanda por arborização que a Mãe Terra demanda. Teatro urbano para as manifestações do vigor civil que o futuro requisita. Espaço festivo da irmanação de rua que as artes e a cultura podem florescer à firmação da identidade e da auto-estima de um lugar.

O novo velho largo de Cem Réis é a primeira ágora que agora João Pessoa tem: a comuna, a praça cívica que impõe um saudável aprendizado da urbanidade. O lugar de baixo, franco túnel ao transeunte sobre rodas. O de cima, o povo, sobe! Salva andarilhos, ávidos pelo estar público e por passeios que suportem sua intensa marcha e busca da felicidade da vida melhor. Garante passagem às motoristas do tempo e rejeita a cidade virtual, em que as comunicações e circunstâncias da vida contemporânea, submetidas ao avanço tecnológico informacional, tentam inclusive prescindir da essência das trocas da vida e do trabalho: cara a cara, o olho no olho.

O instante pede fé na co-responsabilização social que a cidade se empenha em promover. De políticas públicas de ativação da cidadania, com os poderosos instrumentos de gestão municipal ofertados à sociedade, ao lugar que viceja o encontro cívico.

É impossível parar o tempo que reconfigura o espaço. É necessário reconhecer que a sociedade produz continuamente fortes concorrentes às formas tradicionais e saudosistas dos encontros em espaços abertos, livres, públicos. “A cidade não pára, a cidade só cresce”. E a vida da gente flui reinventando os lugares do passado. A memória da cidade não pára, a memória da cidade só cresce!
Microfísica do cotidiano


O interesse na vida coletiva tem sido acometido, já há algum tempo, por uma desmotivação quase generalizada. Vê-se em curso no país, ao longo das últimas três décadas, uma apatia manifesta sobretudo na ação de organismos representativos dos diversos segmentos sociais.
À realidade social se soma, contudo, a partir do mesmo período, um desenvolvimento individual de exercícios de cidadania.

A Constituição de 1988, adulta que já é, revirou em 180 graus o conceito de controle social estabelecido historicamente e o designou norma magna. À medida que se alastra uma aparente reordenação das representações do corpo social, um crescente exercício de cidadania individual media ausências de manifestações organizadas.

Pessoas integradas à sua própria realidade desejam saber como essa se processa. A atenção às vias de sua concretização cotidiana reveste-se naturalmente de exercícios de poder. Antes, viver em si é poder. A começar das condições de dignidade e cidadania em meio ao qual se insere.
Parecer haver um senso comum prevalecente que ainda crê que o poder se exerce apenas através de atribuição delegada formalmente; para o que parece escapar a percepção de sua inerência à ação humana em todas as escalas de inserção ativa na sociedade. No ambiente privado. No ambiente público. Na escola, em casa, no trabalho e, inclusive, no lazer. Michel Foucault celebrizou isto em Microfísica do poder.

A busca de partilha de debates como este envolve o poder que se exerce nas escalas da individualidade. Manifestações muito mais vigorosas do que comumente se reconhece.

O debate público na Paraíba de hoje frutifica dessa escala de graduação do poder das instituições sociais. E se configura, sem dúvida, expressivo de visões de mundo e de mentalidades que imperam na realidade presente.

A estrutura de comunicação social que desenha o debate público na Paraíba hoje, parece empenhar-se, no mais das vezes, em desenhos de conjeturas sobre o que se aproxima para o comando dos rumos do Estado. Tentativas de exercícios de adivinhação do futuro substituem reflexões essenciais sobre caminhos para o desenvolvimento sócio, econômico e cultural e a sustentabilidade de planos e de gestões que objetivem a promoção desta caminhada.

Muito já se fala, embora modesta ainda seja a trajetória coletiva, acerca da sustentabilidade ambiental; entretanto, exercícios recentes de pensamento endossam demandas antigas da sociedade pela sustentabilidade administrativa como essência para qualquer outra busca de sustentação.

Sentimentos pessoais, desprezados comumente, entranham-se com princípios que norteiam a gestão pública e impõem-se vigorosamente maquiados sobre o debate público. A impessoalidade tão advogada carece de viabilidade. Por trás da agente pública, a pessoa pública. Por trás da pessoa pública, a pessoa.

Uma profusão de temas invade a mente e demanda reflexão. Uma manifesta disposição pela e para a transformação da sociedade aguça os sentidos para os invisíveis desígnios da subjetividade. Embora ainda infante o pensamento que vislumbra o impacto do ser na ação social, não é difícil acreditar que, a exemplo das manifestações de poder, o processo de transformação social dá realdade histórica a fatos instantâneos e fugidios e apela à atenção pública à necessidade de exercícios de transformação pessoal na microfísica do cotidiano.

A transformação social impõe a transformação individual. Resta saber que indivíduos realmente
se dispõem a ela.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Cidades tagarelas... ou que mudas permanecem. A sociabilidade observada nas ruas de Goitia

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Rossana Honorato
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Edifica-se a casa para se estar nela; funda-se a cidade para se sair de casa e reunir-se com outrosque também saíram de suas casas”Fernando Chueca Goitia, Breve História do Urbanismo
Na plenitude de seus atributos, as cidades são insubstituíveis. Pode viver-se fora delas, mas sempre contando com elas, abertas ou fechadas...
Valores como esses ilustram as convicções de Goitia em sua investigação sobre as origens das formas de cidades e os modelos de civilização a que deram vida e conduziram a complexa trajetória da humanidade à urbanidade de nossos dias. Como faz isso, é o que pretendo agora demonstrar, elegendo quatro das dez lições de seu livro Breve História do Urbanismo (Lisboa: Editorial Presença, 1982), em que desfila no pano da história tipos fundamentais de cidade e especula anotações sobre suas manifestações na antiguidade, no medievo e na atualidade.
Impressionado com a “mais compreensível das obras do homem” (citando Walt Whitman, 1982:07), é na tarefa da definição do termo que o autor reconhece uma primeira dificuldade. Em busca deste esclarecimento, presta atenção à forma com que as cidades do tempo deixaram marcas no espaço, e relacionaram o morar e os espaços públicos, e consolidaram ou não a existência e o funcionamento de ruas.
Para isso Goitia dirige o seu olhar para o modo de vida nas cidades, caracterizando-o segundo essenciais traços físicos decorrentes e as recíprocas interpenetrações culturais que engendraram, como arquivo da história, como palco da presença ativa de pessoas. Deixando inclusive que vislumbremos o seu profundo descontentamento com o lugar conquistado pelo insaciável monstro desintegrador da vida de rua da cidade contemporânea: o automóvel.
Uma série de abordagens distintas atrai o pensamento do curioso investigador sobre as possibilidades de estudar-se a cidade: a da história, que encontra amparo no trabalho de Spengler, certo de que a história universal é história de cidades; a da geografia, conforme defende Vidal La Blanche a preeminência da natureza sobre o homem, que nela apenas organiza necessidades e desejos; a da economia, em que Pirenne sustenta a inexistência de civilizações que promoveram a vida das cidades sem a vigência do comércio e da indústria; a da política, contextualizada por Aristóteles como uma conjunção de um certo número de cidadãos; a da sociedade, como símbolo de relações sociais integradas, conforme concebida nos preceitos de Munford; e a da arte e da arquitetura, em que Alberti amarrou a grandeza da arquitetura à cidade cujos muros de proteção externassem a solidez de suas instituições.
Para o autor, entre todas, fica explícito o valor que agrega à urbe ao papel fundamental da praça, corroborando a cidade clássica de Ortega & Gasset, nascida de um instinto oposto ao doméstico, por pontuar a rua, o lado de fora, como o local para conversa, ágora, discurso, eloqüência, política: “em rigor, a urbe clássica não devia ter casas, mas apenas as fachadas necessárias para delimitar uma praça... (Ortega e Gasset apud Goitia, 1982:9). E assim, contrapondo vida doméstica e vida civil – cidades domésticas e cidades públicas, Goitia reclama a carência de estudos que banhem de luz a cidade de dentro das portas mediante aquela do lado de fora. Enquanto encarece um apelo à essência definitiva da praça para a vida da cidade, chega a afirmar que a sua inexistência em um aglomerado urbano retira dele a condição de chamar-se cidade, associando a identificação do termo à presença de vida exterior e civil.
Para ele, emerge em significância a loquacidade da cidade: a cidade grande sala de reunião e sede da tertúlia em que se constituiu a ágora conversadeira e promotora da vida citadina, cujo arrefecimento funcional fez igualmente declinar o exercício da cidadania. Daí a ênfase que dá à questão da sociabilidade, aquela capacidade individual ou de grupos à interação social, cujas características formais do espaço podem ou não impulsioná-la.
Para pensar as cidades caladas e aquelas que falam, o autor destaca três tipos de cidade: a cidade pública do mundo clássico – a civitas romana, a cidade doméstica e campesina da civilização nórdica e a cidade privada e religiosa do Islão.
A cidade antiga, precedendo a técnica industrial posterior – como a do império romano que já herdara da grega os sistemas de instalação de esgoto, de aquedutos, de água corrente, os balneários, os pavimentos, os mercados etc. –, ofertou às cidades contemporâneas a contribuição mais importante para o traçado urbano que se consolidou na memória contemporânea.
A aparentemente insípida cidade islâmica preconizada pela cidade-casa, cidade lá dentro, cidade-santuário, tem a plenitude da vida privada atormentada pelo próprio muçulmano, dividido entre o harém e a vida ‘de relação’ que configuram a fisionomia aparente da cidade lá fora. Compreensível fica a importância não dada à rua e à praça da cidade muçulmana – esta última, ‘restrita’ exclusivamente ao pátio da mesquita, espaço religioso para meditação e passivo deleite do tempo que flui, flui, sem parecer causar vexame.
A família da cidade muçulmana é a organização de dentro para fora, da casa para a rua, em oposição à cidade ocidental, em que se qeneralizou o contrário: a rua traçada condicionando a ocupação das casas. Na cidade muçulmana, a casa prevaleceu e obrigou a ‘rua’ à acomodação tortuosa, à intimidade labiríntica, becos sem saída. Estrutura que, inadequadamente nominada para Goitia, justifica o caráter decisivo de seus véus – as portas da cidade. Intrigante configuração, entretanto, pouca atenção mereceu de historiadores da cidade.
A cidade espanhola transparece uma intensa conciliação: a urbe latina, loquaz, dialética e o hermetismo do harém da sociedade islâmica, cujo modelo barroco deu forma a que o autor chama de cidade-convento.
O que provoca a inquietude de Goitia são as questões que indagam o caráter da vida pública para a definição de cidade, visto a sua ausência em alguma delas. Ele busca um conceito que englobe espécies tão diferentes, sobretudo mediante a presença de aglomerações humanas que não constituem cidades, como as das regiões primitivas ou as do interior da África atual ou aquelas da China posterior.
Recorre a Splenger outra vez para corroborar a tese de uma alma da cidade, um verdadeiro milagre que subitamente faça emergir a espiritualidade geral da cultura, uma alma coletiva de nova espécie, “cujos fundamentos últimos permanecerão para nós envoltos em eterno mistério” (1982:15). Uma alma que uma vez desperta forma um corpo visível que vive, respira, cresce, adquire um rosto peculiar, um idioma de formas de história intensa que dá curso ao ciclo vital de uma cultura. Para assim pensar o problema da cidade que a primeira era industrial engendrou, consolidando publica e universalmente seu termo à cidade mais insensata, mais sem alma e mais desintegradora de que somos partícipes, cuja expressão formal engata a racionalidade da quadrícula e alia o símbolo de progresso ao amontoado de gente num lugar que se designa por um nome próprio para mero efeito de correspondência. O que na Grécia antiga representou um triunfo do racionalismo, em Roma e na América do Sul do século XIX converteu-se no principal instrumento dos especuladores de terreno (1982:18).
Sem esquecer as vantagens e possibilidades trazidas pelos novos meios de telecomunicação emergidos da indústria, mas contra a corrente desintegradora da cidade contemporânea, o autor continua acreditando nos locais de reunião pública, nas praças, nos passeios, nos cafés, nos cassinos populares, que são para ele o que fomenta o livre encontro, a livre conversa, fundamentais ao desenvolvimento da valorizada cidade-alma. Por isso reclama uma atenção à reconstrução dos órgãos públicos de uma cidade.
São algumas das questões refletidas pelo arquiteto, historiador da arte, professor e apreciador de palavras Fernando Chueca Goitia para tratar a história de rua: cidades de dentro das portas e cidades de fora das portas; cidade de fachadas, cidade de interiores, cidades sem alma, civilizações sem cidades, insensatas cidades figurando um idioma de imagens em nosso olhar, reclamando ao presente a ágora de agora – um órgão da sensibilidade pública – para gerar vigorosas cidades do lado de fora dos muros.

Exercício apresentado à Disciplina História da forma urbana, período 2004, 1º semestre, do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de
Pernambuco – UFPE – CAC – PPGDU, ministrada pelo arquiteto e professor doutor Geraldo Gomes.